Renato Pattaro decidiu mudar de vida após mais de duas décadas em multinacionais. Em 2019, pediu demissão de uma empresa japonesa e voltou ao sítio da família em Santa Rita do Passa Quatro, no interior paulista. No local onde passava as férias na infância, instalou uma queijaria artesanal e passou a produzir queijos e doce de leite de búfala, produto que conquistou medalha de ouro no Mundial do Queijo, em São Paulo, em 2024.
A ideia do doce surgiu como homenagem à mãe, que morreu em 2016 e apreciava a iguaria. Renato Pattaro testou receitas encontradas na internet até chegar à fórmula atual. “Uso leite, açúcar e muita paciência”, afirma para o Globo Rural. O preparo leva mais de sete horas no tacho, com agitação constante. Antes, ele mexia manualmente em panelas menores, até adaptar o processo com equipamento mecânico.
O doce tem características próximas aos estilos argentino e uruguaio. Segundo o produtor, a receita leva pouco açúcar e uma pequena quantidade de bicarbonato, o que altera as reações químicas e deixa o produto mais escuro e leve. O envase é feito manualmente, ainda quente, em potes de vidro, mantendo o padrão artesanal adotado desde o início.
A relação da família com o campo começou no fim da década de 1970, quando o pai, engenheiro da Pirelli Cabos, comprou o sítio como hobby. Inicialmente, criou gado gir e holandês e depois passou à plantação de laranja. Anos depois, uma viagem à Finlândia despertou o interesse pelos búfalos. “Nos anos 2000, meus pais voltaram de uma viagem à Finlândia, minha mãe viu uma criação de búfalos e sugeriu investir no ‘animal estranho’”, relata.
Atualmente, a propriedade reúne 200 hectares de cana-de-açúcar e 100 búfalas em lactação, com média de sete litros diários por animal e pico de 12 litros. A ordenha ocorre uma vez ao dia, de forma natural, com o bezerro ao lado, sem inseminação artificial. De 70% a 80% do leite segue para laticínio; o restante abastece a produção mensal de 50 quilos de doce e 200 quilos de queijos.
A marca Tesouro comercializa os produtos na região de Santa Rita e em pontos da capital paulista, sem vendas pela internet. “Não tenho pernas para isso”, diz Renato Pattaro, que mantém sete funcionários na queijaria, ordenha e silagem. O objetivo é preservar o modelo artesanal. “Não dá para ficar rico com as búfalas, mas dá para sobreviver”, afirma.


